Interrompido – Recordar é viver (Episódio 3)

Interrompido – Recordar é viver (Episódio 3)

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#episodioanterior

Por ter trabalhado muitas horas, sem descanso, Socorro ficou uma semana afastada, o que foi suficiente pra Luan voltar a ser assombrado pelos pesadelos e visões ainda mais assustadoras – o pior é que era tudo culpa sua. Isso continuou até ele receber uma visita inesperada.

As lembranças começaram a inundá-lo e tudo que o menino Luan conseguiu fazer foi chorar, mas talvez a coisa fosse ainda pior do que imaginava, pois ele descobriu estar com problemas de memória.

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Quando viu Socorro interessada, lhe dando tanta atenção, Luan até ficou meio sem jeito.

— Ah… – Ele pareceu hesitante. – …a senhora tá mais feliz. – O comentário encheu o rosto da enfermeira de sorriso.

— Sim! Deu pra renovar as energias, mas estou mesmo contente por outra coisa. – Ela disse com ar de mistério.

— O quê? – Ele ficou todo curioso.

— Poder voltar! Amo meu marido, mas já estava agoniada de ficar tanto tempo em casa.

— Imagino! Do jeito que a senhora se dedica, ficar afastada tanto tempo deve fazer maior falta.

— Sim, não consigo me ver fazendo outra coisa, é como se cuidar das pessoas fosse meu propósito.

— Por isso a senhora tá sempre sorrindo?

— Sim! Quando a gente se encontra a razão de nossa existência e vive por isso, a vida fica mais bela, mesmo nos dias maus.

— Faz tempo que a senhora é enfermeira?

“Quando a gente se encontra a razão de nossa existência e vive por isso, a vida fica mais bela, mesmo nos dias maus.”

— Vixe, menino Luan! Tem muitos anos já.

— E a senhora fez alguma especialização?

— Várias! Como amo tudo na enfermagem, emendei uma na outra.

— E por que a senhora se tornou enfermeira?

— Isso é algo que nunca planejei, menino Luan, mas acabou acontecendo.

— E o que fez a senhora a se tornar essa enfermeira tão dedicada, mesmo não tando nos seus planos?

Sem esperar, os olhos de Socorro marejaram, com lágrimas que começaram a escorrer por todo rosto.

Ao ver isso, Luan ficou desesperado, ele tomou o máximo de cuidado ao conduzir as perguntas pra não parecer que estivesse tentando invadir a vida pessoal dela ou mesmo ser indelicado, mas pelo jeito, de alguma forma, não obteve sucesso no segundo quesito, pois Socorro estava aos prantos.

Tentando fazer algo, ele se arrumou no leite, pra levantar, mas a enfermeira sinalizou que não precisava.

— Estou bem, menino Luan. – Ela sorriu docemente.

— Mas a senhora tá chorando.

— Nem todo sorriso é de felicidade, assim, como, nem toda lágrima é de dor, choro também pode significar liberdade ou felicidade intensa. – Luan apenas concordou com um aceno, ele mal sabia o que dizer.

— E por que a senhora começou a chorar quando perguntei o motivo de virar enfermeira?

— Existem vários motivos que podem nos levar a fazer algo, mas alguns são tão fortes que a gente não apenas segue numa direção, mas muda completamente.

Então, Socorro se pôs a contar o que a mudou a ponto de seguir com tanto amor numa carreira a qual nunca, se quer, imaginou. Foi isso que a fez verter os sentimentos em lágrimas, a tempos que tudo aquilo estava tão internalizado em si que lhe servia de força propulsora, ainda assim, tudo aquilo ainda a tocava profundamente quando lembrava do que aconteceu, afinal, recordar é viver.

“Nem todo sorriso é de felicidade, assim, como, nem toda lágrima é de dor, choro também pode significar liberdade ou felicidade intensa.”

O dia parecia como outro qualquer, a tarde se esticava preguiçosamente – como era de costume no interior – longe da correria da cidade grande, o tempo aproveitava pra apreciar melhor a paisagem, até desemborcar num belo crepúsculo que trazia consigo uma noite estrelada.

Carlos Eduardo não era de assistir TV, o tempo em casa costumava ser gasto na frente do iMac, fazendo os trabalhos da facu entre outras coisas, só que aquele dia Cadu resolveu dar um descanso pro computador e passar a maior parte do tempo na companhia dos pais.

Sempre ocupado, ele mal ficava com os progenitores, assim, mesmo estando próximos, acabavam ficando distantes, então deu uma pausa no que fazia e foi curtir um pouco os pais, além de aproveitar pra espairecer.

Pra tornar o tempo mais agradável, fez uma seleção de filmes pra assistir em família, mas quando ia botar, começou a passar um comercial que lhe chamou a atenção.

Nele, um cachorrinho passa os dias esperando seu dono aparecer, até que um dia, todo feliz, começa a latir, mas o caminhante mal lhe dá atenção, então ele entra e sobe na poltrona da casa, de onde é possível ver uma foto dele com seu dono. No fim, surge: “Quando você doa seus órgãos, uma parte de você continua viva. Seja doador.”

— Mãe, pai! Quando morrer quero doar meus órgãos!

— Está bem! A gente vê.

Pra Maria de Lourdes o comentário não merecia tanto crédito, mas Cadu se sentiu mexido com o comercial, tanto que precisou se segurar pra não chorar.

Ele nunca tinha pensado sobre o assunto, nem que quando partisse dessa vida podia deixar mais do que ações, mas um pouco de si mesmo vivo. Os três passaram a tarde assistindo, mas a ideia ficou martelando a cabeça do garoto.

“Existem vários motivos que podem nos levar a fazer algo, mas alguns são tão fortes que a gente não apenas segue numa direção, mas muda completamente.”

Perto das oito, Lourdes levantou pra preparar o jantar, então Cadu disse pra mãe deixar que ele é quem ia assumir a cozinha e lá se foi, preparar seu lámen gourmet. Além do tradicional miojo, a receita levava brócolis, abobrinha, linguiça toscana, cebola, cebolinha, coentro, azeitona, orégano e azeite.

Depois de terminado, ele fez os pratos, polvilhando cada um com um pouco de queijo ralado, quando virou pra chamar os pais, chega levou um susto, os dois estavam atrás eles com um sorriso maroto.

— Cês quase me mataram de susto, surgindo do nada! – Ele fingiu brigar.

— Ah! O cheiro estava tão bom que a gente não resistiu.

De repente, Marcos sentiu-se observado, quanto olhou, viu o filho e a esposa o encarando.

— Já pode comer? – Desconfiado, ele perguntou com a colher a poucos centímetros da boca.

— Claro, paizão!

Os três riram e se sentaram na mesa, Lourdes pediu apenas pra esperar agradecer pelo alimento [1 Tessalonicenses 5.18]. Terminada a prece, eles foram fundo no lámen gourmet, sem deixar, se quer, sobrar caldo pra contar história.

Mesmo aquele sendo seu prato favorito, Cadu não conseguiu comer sem ficar fazendo graça, os pais iam na onda rindo a cada piada. Terminada a refeição, ele tomou banho e se arrumou pra ir trabalhar.

Cadu entrava de noite e só saía de manhã, como morava apenas alguns quilômetros podia enrolar um pouco, até porque costumava pedir um carro pra ir – devido a curta distância, além de chegar rápido, o valor pago era baixo – já na saída preferia voltar a pé, assim dava pra ver o dia tomar o horizonte, enquanto organizava os pensamentos – hábito esse muito saudável, além de bastante prazeroso.

Após beijar os pais, ele se foi. Ao fechar a porta, passou novamente a Campanha de doação de órgãos da Santa Casa.

“Quê isso!? Meu menino é novo demais pra pensar essas coisas!” – Lourdes se corrigiu ao lembrar do pedido do filho. Ele ainda tinha muito que viver. – “Ainda tem que terminar a faculdade, casar e me dar muitos netos!” – Ela começou a devanear com o futuro brilhante que aguardava Cadu, tão inteligente e esforçado, e se empolgou tanto que até sorriu.

“Uma hora dessas os pais já deve tá no sono profundo.” – Cadu riu ao olhar o relógio.

“Ter um filho é o mesmo que conquistar um troféu, que habilita os pais pra seguir no próximo nível de paixão, cuidados e alegrias.”

Se bem que eles costumam dormir tarde de domingo, como Lourdes fazia doces por encomenda podia levar a hora que quisesse, já Marcos trabalhava de terça a sábado, então ficava de boas na segunda.

— Que será que eles tão fazendo agora? – Ele tentou imaginar.

Independente do que fosse, deviam estar aproveitando, algo merecido, eles já tinham feito muito por ele, agora Cadu estava ali, construindo o próprio futuro, graças a todo empenho dos pais.

Aos poucos o sol começou despontar janela da cozinha, chegando numa luz fraca, mas acolhedora.

— COCORICOOOÓ! – Berrou o galo da vizinha, anunciado que o dia já tinha nascido.

— Háaa! Dessa vez você não me acordou! – Lourdes apontou pra janela. – Levantei primeiro! – Ela riu, comemorando.

— Primeiro que quem, querida? – Marcos ficou curioso de saber com quem a esposa falava uma hora daquelas.

— Bom dia, neguinho!

— Bom dia, meu bem! – Eles se beijaram apaixonadamente.

Os dois continuavam se amando na intensidade de quando namoravam, mesmo já tendo passado dos trinta que estavam juntos. Quando casaram, Lourdes tinha apenas 16 anos, já Marcos era dois anos mais velho.

— Estava falando com aquele galo chato.

— Você e esse galo! – Ele riu. – Hummm… estou sentindo um cheirinho bom! – Marcos fechou os olhos pra apreciar melhor o aroma que enchia o ar de sabor.

— Como levantei antes das galinhas, aproveitei pra fazer o bolo preferido do Cadu…

— Eba! – Marcos interrompeu a esposa, empolgado feito criança. – Bolo de milho também é meu preferido.

— Sei disso, neguinho! – Lourdes piscou pro marido e deu um sorriso lindo.

— Mas não é só isso, estou sentindo mais outro cheirinho bom aí! – Marcos riu, faceiro.

— Esse meu neguinho é tão esperto! – Ela piscou. – É que aproveitei o forno, daí também fiz torta e pão de queijo.

Após tudo pronto, Marcos ajudou a dispor as iguarias sobre a mesa, forrada com uma tolha de estampa floral – com croché nas bordas, trabalho executado pelas habilidosas mãos de Lourdes.

Fartamente servida, a mesa tinha bolo de milho, torta de carne, pão de queijo, suco de laranja, leite, café, queijo branco, presunto, pão caseiro do dia anterior, manteiga, requeijão, patê de azeitona e frutas – muitas frutas.

— Meu bem, você estava mesmo inspirada hoje! – Marcos abraçou a esposa pelo ombro.

Os olhos dele chega brilhavam, ao ver aquele café colonial, se fosse um pouco mais tarde dava até pra chamar de brunch, tamanha variedade – isso porque era só pra três pessoas que nem comiam tanto assim.

— Ah! Não é nada de mais! – Humilde, ela desdenhou. – Só aproveitei que acordei cedo.

— Você é mesmo incrível, amor! – Ele a agarrou pela cintura e lhe deu um beijo. – E a que devemos tudo isso?

— Só pra comemorar que estamos juntos e com saúde. – Lourdes era pura gratidão.

— Melhor motivo pra comemorar! – Ele concordou. – Agora é só esperar o Cadu pra aproveitar.

Então os dois foram assistir o jornal matinal, enquanto aguardavam o filho chegar. Só que isso serviu apenas pra mostrar como o mundo estava ainda cada vez pior e mais violento.

A cada notícia chocante, Lourdes exclamava “Meu, Deus!”, já Marcos ponderava em silêncio sobre o que era dito e mostrado, mas embora calado, estava começando a ficar inquieto, já tinha passado da hora de Cadu chegar e nada – e saber aquelas coisas só o fez ficar mais preocupado.

Ele sabia o tempo exato que Cadu levava da firma até em casa – mesmo andando de vagar pra apreciar a vista – como ele não tinha aula de segunda, já devia ter chegado a doze minutos atrás. Marcos achou melhor ligar e saber logo de uma vez o que estava acontecendo pro filho ainda não ter chegado e, prontamente, pegou o celular.

— Cadu? – Ele tentou esconder a aflição sentida.

— E aí, paizão, beleza? – Ao ouvir o suave som da risada do filho, Marcos sentiu a alma se inundar de alívio.

— Onde você está, filho? O pai estava preocupado já!

— Ô, pai! Precisa se preocupar não. Só demorei um pouquinho!

— Você sabe como o pai é. Por que demorou?

— Perdão por não avisar e que tava trocando umas ideia com os parça do trampo e esqueci o tempo total. Adivinha só onde tô agora, pai! – Cadu brincou.

Pressentindo que o filho estava chegando, Lourdes levantou pra esquentar o café e o leite, além de fazer ovos mexidos com bacon. Cadu insistia o dela ficava melhor que o dele, embora ela achasse que o filho cozinhava bem demais e que isso era só desculpa pra ela fazer, Lourdes apenas ria e sempre preparava os ovos de bom grado.

Ela sentia muito orgulho do filho, Cadu era melhor do que tinha imaginado e sempre que podia ela contava pras pessoas de como Cadu era bom e inteligente. Lourdes sentia que ele era seu maior feito – ter um filho é o mesmo que conquistar um troféu, que habilita os pais pra seguir no próximo nível de paixão, cuidados e alegrias.

Ao chegou perto do fogão, Lourdes sentiu um forte mal-estar, com um pouco de tontura, mas que logo passou. Ignorando a sensação, ela deixou tudo pronto.

— SCREEECH! – Um barulho de pneu derrapando, seguido de um berro e, logo depois, de um forte estrondo, vieram tão de surpresa que quase a fizeram perder o equilíbrio.

Por pouco Lourdes não derruba o bule de porcelana predileto – presente de aniversário de casamento, dado pela mãe pouco antes de partir dessa pra melhor.

— Tem misericórdia, Senhor! Pelo barulho isso deve ter sido bem perto daqui. – Ela começou a ficar aflita só de imaginar o que podia ser aquilo.

— Querida! – Na hora que ouviu Marcos chamá-la, um arrepio que levantou todos os pelos, lhe atravessou a espinha, fazendo-lhe largar o bule que, instantaneamente, se converteu em meros caquinhos.

Quando deu por si, Lourdes já estava na porta da frente de casa, vendo o marido correr pro portão, então ela fez o mesmo. Chegando lá, foi atraída pra fora, de onde pode ver melhor que o barulho tinha vindo do carro que se chocou violentamente contra o poste da esquina, que acabou caindo por cima dele, o deixando completamente amassado.

A visão de algo tão trágico lhe roubou palavras e pensamentos, deixando-a sem ter como reagir, a não ser colocar a mão na boca estarrecida – mal sabia ela que aquilo ainda era pouco pro que estava prestes a se apresentar.

Ao olhar pro quintal, viu Marcos andar apressado, mesmo de costas deu pra notar que ele estava ensanguentado e parecia carregar alguém nos braços. Ela, então, começou sentir uma fraqueza e dificuldade pra respirar, enquanto a cabeça doía com umas pontadas.

— Marcos, o que aconteceu? – Ela berrou, mas como se não pudesse nada ouvir, ele a ignorou e continuou em frente.

Os olhos começaram a enxergar com dificuldade, assustada, Lourdes correu, enquanto sentia taquicardia. Já pálida e tremendo, conseguiu tocar o ombro do marido, foi quando uma tontura fez tudo virar de ponta-cabeça, daí uma escuridão indomável lhe tomou os sentidos.


#proximoepisodio

Algo bem ruim aconteceu, mas mesmo desesperada pra saber o que houve, Lourdes fica assustada a ponto da pressão subir e ela acaba desmaiando. O que foi que aconteceu com Marcos, será que ele viu o acidente e quem é a pessoa que ele levava nos braços?

Leva bastante tempo até que Lourdes consiga recuperar a consciência, mas quando isso acontece, ela se vê num terrível pesadelo que a faz surtar de vez.

Ósculos e amplexos,

mishael mendes sign, assinatura

Mishael Mendes

Um cara apaixonado por música, se deixar ele não faz nada sem uma boa trilha sonora. Amante de fotografia, livros, animais e comida boa – principalmente a da mãezona. Criou o blog e o canal pra compartilhar sua visão inversível da vida.